Brasileiro pode fazer faculdade de medicina em Portugal por dois caminhos: pelo regime geral, o Concurso Nacional de Acesso, se tiver nacionalidade portuguesa ou de outro país da UE ou se for equiparado (residência legal há mais de dois anos ou estatuto de igualdade), ou como estudante internacional, em vagas próprias de cada universidade. No regime geral, a propina do Mestrado Integrado em Medicina da Universidade de Lisboa em 2026/2027 é de €697 por ano. Como estudante internacional, a mesma faculdade cobra €18.000 por ano e abriu 11 vagas para 2026/2027, com acesso pelo ENEM.
Este guia explica qual regime se aplica a você, quais faculdades de medicina em Portugal aceitam brasileiros como estudantes internacionais, quanto custa, como funciona o visto de estudante e o que acontece depois da formatura. No fim, também tratamos do médico que já se formou no Brasil e quer exercer em Portugal.
Estudante internacional ou regime geral: o que define o seu acesso a Medicina em Portugal
A primeira pergunta não é "qual faculdade", e sim "em que regime eu entro". Portugal separa os candidatos ao ensino superior em dois grupos. O critério está no Estatuto do Estudante Internacional, criado pelo Decreto-Lei n.º 36/2014 e alterado depois, pela última vez pelo Decreto-Lei n.º 20/2025.
Pela regra geral, é estudante internacional quem não tem nacionalidade portuguesa. A lei, porém, tira desse grupo cinco perfis. Não são estudantes internacionais:
- nacionais de um país da União Europeia ou do Espaço Económico Europeu;
- familiares de cidadãos portugueses, da UE ou do EEE, qualquer que seja a nacionalidade deles;
- quem reside legalmente em Portugal há mais de dois anos, sem interrupção, em 1 de janeiro do ano em que quer entrar na faculdade (e os filhos que residem com ele);
- quem tem estatuto de igualdade de direitos por tratado internacional com Portugal, caso do estatuto de igualdade entre brasileiros e portugueses;
- quem entra por um dos regimes especiais de acesso previstos na lei.
Quem está em um desses perfis concorre pelo regime geral, como um estudante português. Quem não está entra como estudante internacional, por um concurso especial que cada universidade organiza, com vagas, calendário e propina próprios. Um detalhe pesa aqui: o estatuto de estudante internacional se mantém até o fim do ciclo de estudos, a menos que você adquira a nacionalidade portuguesa, de outro país da UE ou do EEE. Resolver a cidadania antes da matrícula muda, portanto, o regime do curso inteiro.
As rotas de acesso à faculdade de medicina em Portugal para brasileiros
Na prática, o brasileiro que quer estudar Medicina em Portugal tem quatro formas de ficar fora do grupo "internacional" e uma via como estudante internacional. Veja cada uma.
Rota 1: cidadania portuguesa ou de outro país da UE
Com a nacionalidade portuguesa, você concorre ao Concurso Nacional de Acesso nas mesmas condições de um estudante português. O mesmo vale para quem tem cidadania italiana, espanhola ou de qualquer outro país da UE. A seleção usa a média do ensino secundário e os exames nacionais exigidos como provas de ingresso, e as notas de entrada em Medicina estão entre as mais altas do país. Por isso, quem terminou o ensino médio no Brasil precisa planejar a equivalência do secundário e a preparação para os exames portugueses.
Se você é filho ou neto de português, a cidadania pode vir antes do vestibular português. Para filho, o prazo do nosso serviço de cidadania para filho de português é de 4 a 8 meses. Para neto, o prazo informado na página de cidadania para neto de português é de 30 a 40 meses, e os pedidos novos seguem as regras da Lei Orgânica n.º 1/2026, em vigor desde 19 de maio de 2026. Para quem pensa em medicina, isso significa começar cedo.
Rota 2: familiar de cidadão português ou da UE
O Decreto-Lei n.º 20/2025 exclui do estatuto de estudante internacional os familiares de cidadãos portugueses, da UE ou do EEE, "independentemente da sua nacionalidade". Assim, um brasileiro cujo pai ou mãe tem cidadania europeia pode concorrer pelo regime geral mesmo sem ter o próprio passaporte europeu. Quem é "familiar" para esse efeito depende da definição legal (idade, dependência, parentesco). Por isso, confirme o enquadramento com a universidade antes de contar com essa rota.
Rota 3: residência legal em Portugal há mais de dois anos
Quem reside legalmente em Portugal há mais de dois anos, de forma contínua, em 1 de janeiro do ano de ingresso também sai do grupo internacional. Os filhos que residem com essa pessoa entram na mesma regra. O ponto que mais confunde: o tempo com autorização de residência para estudo só conta se, nesse período, o estudante frequentou o ensino secundário em Portugal. Ou seja, fazer faculdade com visto de estudante durante dois anos não abre o regime geral para Medicina. A residência precisa ter outra base, como trabalho, rendimentos próprios ou reagrupamento familiar.
Rota 4: estatuto de igualdade de direitos e deveres
O estatuto de igualdade é um direito dos brasileiros com residência legal em Portugal, previsto no tratado de amizade entre os dois países. Quem o obtém deixa de ser estudante internacional para efeitos de acesso ao ensino superior. Assim, pode inscrever-se no Concurso Nacional de Acesso. O pedido exige autorização de residência válida, e o tempo de análise depende da fila do órgão. Por isso, conte com essa etapa no calendário antes das candidaturas ao concurso nacional.
Via estudante internacional: concurso especial com ENEM
Várias faculdades abrem vagas próprias no concurso especial e aceitam o ENEM. As vagas são poucas e as regras mudam a cada ano. Os dados abaixo são das páginas oficiais das faculdades, no ano indicado:
| Faculdade | Ano letivo | Vagas | Propina anual | ENEM e língua |
|---|---|---|---|---|
| Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa | 2026/2027 | 11 | €18.000 | Aceita ENEM (Ciências da Natureza e Matemática); B1 em português ou inglês |
| Faculdade de Medicina da Universidade do Porto | 2025/2026 | 12 | €16.500 | Aceita ENEM; B1 em português |
| ICBAS, Universidade do Porto | 2025/2026 | 10 na 1.ª fase | €16.500 (também para CPLP) | Aceita ENEM dos últimos 4 anos; B1 em português |
| Universidade de Coimbra | 2026/2027 | ver edital | €18.000 | ENEM listado como via de acesso |
| Universidade Católica Portuguesa (privada) | 2026/2027 | 9 | ver site da faculdade | ENEM mínimo de 700 pontos; processo e curso em inglês, B2 |
Nem toda escola médica abre vagas nessa via todos os anos. Antes de se candidatar, confira o edital do ano na página de cada faculdade: vagas, propina, prazos e a forma de converter a nota do ENEM mudam de um ano para o outro. Para entender como a nota do ENEM é usada nos outros cursos, veja o nosso guia sobre estudar em Portugal pelo ENEM.
Se Medicina Dentária ou Medicina Veterinária também estão nos seus planos, vale olhar os editais dessas áreas. O ICBAS, por exemplo, publica concurso especial para estudantes internacionais em Medicina Veterinária.
Como funciona o curso de Medicina em Portugal
Estrutura do Mestrado Integrado em Medicina
Em Portugal, Medicina é um Mestrado Integrado: 6 anos, 12 semestres e 360 créditos ECTS, segundo a Universidade de Lisboa. Os três primeiros anos concentram as ciências básicas. Os seguintes são de formação clínica, e o sexto ano tem estágio clínico e o trabalho final. Aprovado, você recebe o grau de mestre em Medicina, e não apenas um bacharelado como no Brasil.
A formatura não encerra a formação. Para exercer, o recém-formado se inscreve na Ordem dos Médicos e entra no internato médico. Segundo a ACSS, que gere o internato no SNS, ele tem duas fases. Primeiro vem a formação geral, com colocação em 1 de janeiro de cada ano. Depois vem a formação especializada (a residência), com acesso pela Prova Nacional de Acesso. O regime jurídico é o do Decreto-Lei n.º 13/2018.
Onde estudar Medicina em Portugal
O Mestrado Integrado em Medicina existe nas escolas públicas de Lisboa (Universidade de Lisboa e NOVA Medical School), do Porto (Faculdade de Medicina e ICBAS), de Coimbra, da Universidade do Minho, em Braga, e da Universidade da Beira Interior, na Covilhã. Existe também na Universidade Católica Portuguesa, que é privada e ensina em inglês. Cada instituição define o seu processo para estudantes internacionais, e algumas não o oferecem. Por isso, a lista de escolas não substitui a leitura do edital.
Quanto custa a faculdade de medicina em Portugal para brasileiros
A diferença de custo entre os dois regimes é o dado que mais pesa na decisão. Na Universidade de Lisboa, a propina de 2026/2027 do Mestrado Integrado em Medicina é de €697 por ano no regime geral, que pode ser paga em até dez prestações. Para o estudante internacional, a mesma faculdade cobra €18.000 por ano, com 30% na matrícula. Em seis anos de curso, a diferença passa de €100.000.
| Perfil | Como entra | Propina anual (referência) |
|---|---|---|
| Cidadão português ou da UE | Concurso Nacional de Acesso | Regime geral (€697 na FMUL em 2026/2027) |
| Familiar de cidadão da UE, residente há mais de 2 anos ou com estatuto de igualdade | Concurso Nacional de Acesso | Regime geral |
| Estudante internacional | Concurso especial da universidade | €16.500 a €18.000 nas escolas públicas da tabela acima |
Propina não é o único custo. Entram na conta a taxa de candidatura (a FMUL cobra €100), o alojamento, a alimentação, o transporte e o seguro de saúde. Esses valores mudam muito entre Lisboa, Porto, Coimbra, Braga e Covilhã. Faça a sua conta com preços reais da cidade escolhida, e não com médias genéricas. Algumas universidades já ofereceram descontos para estudantes de países da CPLP em outros cursos. Em Medicina, porém, o ICBAS informa o mesmo valor para CPLP. Confirme sempre na página de propinas da faculdade.
Visto de estudante D4 e autorização de residência
O brasileiro sem cidadania europeia que vai cursar Medicina em Portugal precisa de visto de residência para estudo, conhecido como D4. Ele está no artigo 62.º da Lei n.º 23/2007, a lei de estrangeiros. É pedido no Brasil, antes da viagem, e o documento central é a carta de aceitação da universidade. Por isso, a ordem é sempre: candidatura, aceitação e, só depois, visto.
Segundo o artigo 62.º, o estudante do ensino superior precisa comprovar que foi aceito numa instituição e que tem recursos para frequentar o curso, além de ter seguro de saúde. Quem for admitido numa instituição aprovada nos termos do artigo 91.º fica dispensado de comprovar o seguro e os meios de subsistência. Os documentos pedidos no posto consular costumam incluir:
- passaporte válido;
- formulário de pedido de visto e fotografias;
- carta de aceitação ou comprovativo de matrícula;
- comprovante de meios de subsistência e seguro de saúde, salvo a dispensa acima;
- certidão de antecedentes criminais;
- comprovante de alojamento em Portugal.
Confira a lista atual no posto consular da sua jurisdição antes de marcar o atendimento. O prazo do nosso serviço de visto de estudante D4 é de 60 a 90 dias, e o pedido costuma ser feito entre a aceitação (agosto ou setembro nos editais acima) e o início das aulas. Com a janela tão curta, deixe os documentos pessoais prontos antes do resultado. O passo a passo completo está no guia do visto D4 em 2026.
Já em Portugal, o estudante pede a autorização de residência na AIMA. Pelo artigo 91.º da mesma lei, a autorização de residência de estudante do ensino superior vale três anos, renovável por iguais períodos. Durante o curso, o artigo 97.º da mesma lei permite exercer atividade profissional, por conta de outrem ou por conta própria, de forma complementar aos estudos, sem exigir autorização nem comunicação prévia à AIMA. Lembre, porém, que esse tempo de residência como estudante não abre o regime geral de acesso (rota 3).
O que acontece depois da formatura: Ordem, Revalida e carreira
Trabalhar em Portugal após formado
Quem se forma numa faculdade de medicina em Portugal segue o caminho de qualquer médico português. Primeiro, faz a inscrição na Ordem dos Médicos. Depois, faz o internato médico e, se quiser especialidade, a Prova Nacional de Acesso. Como o diploma é português, não há reconhecimento a fazer. Quem estudou com visto precisa, porém, ajustar a autorização de residência ao novo motivo de permanência, o trabalho, antes de a de estudante vencer.
Posso exercer medicina em outros países da Europa?
A formação em Medicina segue as regras europeias de reconhecimento de qualificações profissionais. Um diploma português dá, portanto, acesso facilitado aos outros países da UE. Mesmo assim, cada país tem o seu processo de registro no conselho médico local e costuma exigir o idioma. Além disso, trabalhar noutro país da UE depende do seu direito de residência lá. Com cidadania europeia, isso é livre; sem ela, vale a lei de imigração de cada país.
Quero voltar ao Brasil depois de me formar: e agora?
Para exercer no Brasil com diploma estrangeiro, inclusive português, é preciso revalidar o diploma antes de pedir o registro no CRM. O Revalida, aplicado pelo Inep, tem duas etapas eliminatórias: provas escritas e avaliação de habilidades clínicas. Vale para estrangeiros e para brasileiros formados no exterior. Se o seu plano é voltar, inclua esse exame no planejamento desde o início.
Já sou médico formado no Brasil: como exercer em Portugal?
Para quem já tem o diploma brasileiro, o caminho não passa pela faculdade, e sim pelo reconhecimento específico do grau, previsto no Decreto-Lei n.º 66/2018. O pedido é feito numa escola médica portuguesa e inclui exame escrito, prova prática e um trabalho final. No calendário publicado pela NOVA Medical School para 2026/2027, o prazo de candidatura terminou em 1 de setembro de 2026. A Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa mantém regras próprias de equivalência, incluindo condições para alguns cursos brasileiros.
Com o grau reconhecido, o médico se inscreve na Ordem dos Médicos. A Ordem pode exigir prova de comunicação em língua portuguesa de quem não se formou em português. Para o brasileiro, a formação em português costuma resolver essa exigência, mas confirme o documento que a Ordem pede. Especialidade feita no Brasil é outro processo, pedido depois à Ordem. Todo esse caminho, com o visto de trabalho e a via para quem tem cidadania, está no nosso guia sobre como o médico brasileiro pode trabalhar em Portugal.
Se você tem pai, mãe, avô ou avó português, vale verificar a cidadania antes de qualquer candidatura. Ela transforma o acesso e o custo do curso para o estudante e simplifica a residência para o médico. Descubra em poucos minutos se você tem direito com o teste de cidadania.
Perguntas frequentes
Brasileiro pode fazer Medicina em universidade pública de Portugal?
Sim, por duas vias. Pelo Concurso Nacional de Acesso entram os brasileiros com cidadania portuguesa ou de outro país da UE, os familiares de cidadãos europeus, quem reside legalmente em Portugal há mais de dois anos (sem contar o tempo de visto de estudante no ensino superior) e quem tem o estatuto de igualdade. Os demais entram como estudantes internacionais, nas vagas que cada faculdade abre. Em 2026/2027, a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa abriu 11 vagas, com propina de €18.000 por ano.
O ENEM serve para entrar em Medicina em Portugal?
Sim, na via de estudante internacional de algumas faculdades. Nas páginas oficiais, a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, o ICBAS, a Universidade de Coimbra e a Universidade Católica Portuguesa (privada, com nota mínima de 700 pontos) listam o ENEM como via de acesso. Cada uma define como converte a nota e que nível de língua exige, e as vagas são poucas. Pelo Concurso Nacional de Acesso, o ENEM não substitui os exames nacionais portugueses.
Qual a diferença de custo entre estudar Medicina em Portugal com e sem cidadania europeia?
Na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, em 2026/2027, a propina é de €697 por ano no regime geral e de €18.000 por ano para o estudante internacional. Nas escolas do Porto, a propina de estudante internacional em 2025/2026 era de €16.500. Somando seis anos de curso, a diferença passa de €100.000, sem contar o custo de vida. Confirme o valor do ano na página de propinas de cada faculdade.
Preciso do visto D4 para estudar Medicina em Portugal?
Sim, se você não tem cidadania portuguesa ou de outro país da UE. O visto de residência para estudo (artigo 62.º da Lei n.º 23/2007) é pedido no Brasil depois da carta de aceitação da universidade. Em Portugal, você pede à AIMA a autorização de residência de estudante, que vale três anos e é renovável. O prazo do nosso serviço de visto D4 é de 60 a 90 dias.
Quantos anos dura a Medicina em Portugal?
O Mestrado Integrado em Medicina dura 6 anos (12 semestres, 360 créditos ECTS) e confere o grau de mestre. Depois vem o internato médico. Primeiro, a formação geral; em seguida, para quem passa na Prova Nacional de Acesso, a formação especializada, que dura alguns anos conforme a especialidade.
Se eu me formar em Medicina em Portugal, posso atuar no Brasil sem fazer o Revalida?
Não. Todo diploma de Medicina obtido no exterior, inclusive o português, precisa ser revalidado para o registro no CRM. O Revalida, aplicado pelo Inep, tem duas etapas eliminatórias: provas escritas e avaliação de habilidades clínicas.
Médico formado no Brasil pode exercer em Portugal?
Pode, depois do reconhecimento específico do grau numa escola médica portuguesa (Decreto-Lei n.º 66/2018). O processo inclui exame escrito, prova prática e trabalho final. Depois vem a inscrição na Ordem dos Médicos. As candidaturas têm prazo anual; no calendário da NOVA Medical School para 2026/2027, o prazo foi 1 de setembro de 2026.
Faculdade de medicina em Portugal para brasileiros é um projeto de seis anos. O regime em que você entra define a propina, o calendário e o visto. Por isso, a ordem certa é: verificar se há direito à cidadania, escolher a via de acesso e só então preparar candidatura e visto. A Cidadania e Visto analisa o seu caso e indica o caminho, da cidadania ao visto de estudante, com acompanhamento de advogado nos dois países. Cada caso tem suas particularidades — começa por uma análise honesta.






