Dois brasileiros, filhos do mesmo pai português, com os mesmos documentos, podem ter o pedido de nacionalidade analisado com anos de diferença. O que separa os dois não é o direito, que é igual, mas a porta por onde o pedido entrou: a via da inscrição ou a via da transcrição. Nos quadros que o IRN divulgou referentes a agosto de 2026, a fila mais rápida para filhos maiores de idade estava em cerca de 5 meses; a mais lenta, em cerca de 53 meses — mais de quatro anos. O contraste foi tema do blog Portugal Giro, do jornal O Globo.
Este texto explica o que é cada via, quem pode usar cada uma e o que os números mais recentes mostram. Vale para a cidadania de filho(a) de português(a), prevista no art. 1.º, n.º 1, alínea c) da Lei da Nacionalidade — é nessa categoria que o IRN separa as filas por via.
O que é inscrição e o que é transcrição
As duas vias levam ao mesmo resultado: o assento de nascimento português, que é o documento que comprova a cidadania. A diferença está na forma como o pedido é apresentado — e, por consequência, na fila em que ele passa a esperar.
- Inscrição: o pedido é apresentado presencialmente numa conservatória em Portugal, pelo próprio interessado ou por advogado ou solicitador com procuração. Não existe submissão online para essa via.
- Transcrição: o pedido é feito por declaração no Modelo 1C do IRN, que pode ser enviado pela plataforma online (por advogado ou solicitador), pelo correio ou por meio de um consulado de Portugal.
Como a transcrição pode ser feita a distância, é o caminho mais usado por quem mora no Brasil — e, justamente por isso, é a fila que mais acumula processos.
Quem pode usar cada via
A escolha da via não depende de requisito jurídico diferente: o filho maior de idade de português pode escolher entre inscrição e transcrição. O direito e os documentos são os mesmos. O que muda é a logística:
- Para a inscrição, alguém precisa estar fisicamente numa conservatória em Portugal: o próprio requerente, se estiver no país, ou um advogado ou solicitador que o represente por procuração. Quem mora no Brasil não precisa viajar.
- Para a transcrição, o pedido pode ser feito sem ninguém em Portugal: pela plataforma online, por um profissional habilitado; pelo correio, pelo próprio interessado; ou no consulado.
No caso de filhos menores de idade, o pedido é feito pelos pais ou representantes legais, também por uma das duas vias. O IRN mantém filas próprias para menores, que costumam andar mais depressa.
Os requisitos são os mesmos nas duas vias: ser filho(a) de cidadão português e ter a filiação legalmente estabelecida, com certidões consistentes entre si. Divergências de nomes, datas ou grafias entre os documentos continuam sendo a principal causa de exigências — e isso vale para qualquer porta de entrada.
O que os quadros do IRN mostram (referência: agosto de 2026)
Os números abaixo vêm dos quadros que o Arquivo Central do Porto (ACP) e a Conservatória dos Registos Centrais (CRC), em Lisboa, divulgaram com referência a agosto de 2026. Eles indicam a data de entrada dos pedidos que estavam sendo analisados naquele mês. A coluna "fila" é a distância entre essa data e o mês do quadro — ou seja, há quanto tempo esperavam os pedidos que estavam chegando à análise.
Filho(a) de português(a), maior de idade
| Órgão | Via | Pedidos em análise | Fila |
|---|---|---|---|
| Arquivo Central do Porto | Inscrição | 1.ª quinzena de março de 2026 | cerca de 5 meses |
| Arquivo Central do Porto | Transcrição | 2.ª quinzena de maio de 2025 | cerca de 15 meses |
| Registos Centrais (Lisboa) | Inscrição | 1.ª quinzena de novembro de 2023 | cerca de 33 meses |
| Registos Centrais (Lisboa) | Transcrição | 2.ª quinzena de março de 2022 | cerca de 53 meses |
Filho(a) de português(a), menor de idade
| Órgão | Via | Pedidos em análise | Fila |
|---|---|---|---|
| Arquivo Central do Porto | Inscrição | 2.ª quinzena de maio de 2026 | cerca de 3 meses |
| Arquivo Central do Porto | Transcrição | 2.ª quinzena de novembro de 2025 | cerca de 9 meses |
| Registos Centrais (Lisboa) | Transcrição | 2.ª quinzena de setembro de 2025 | cerca de 11 meses |
A CRC não reportou a fila de inscrição de menores em agosto de 2026; no último quadro em que ela apareceu (junho de 2026), estavam em análise pedidos da 2.ª quinzena de março de 2026.
Duas leituras importantes:
- Via e órgão são duas variáveis diferentes, e elas se somam. No Porto, a inscrição está cerca de 10 meses à frente da transcrição. Em Lisboa, a diferença passa de um ano e meio. E Lisboa, em qualquer via, está bem atrás do Porto.
- Agosto é mês de férias judiciais em Portugal. Nos quadros da CRC, quase todas as filas ficaram paradas na mesma data de julho — a espera "cresceu" um mês porque o calendário andou e a fila não.
Para comparação, outras categorias estavam assim no mesmo mês: neto(a) de português(a), maior de idade — pedidos da 2.ª quinzena de setembro de 2023 no Porto (cerca de 35 meses) e da 1.ª quinzena de fevereiro de 2022 em Lisboa (cerca de 54 meses); casamento com português(a) na CRC — pedidos da 1.ª quinzena de novembro de 2021 (cerca de 57 meses). Nessas categorias o IRN não divide a fila por via.
Os quadros mudam todo mês. A nossa página de prazos da nacionalidade portuguesa reúne a série histórica de cada fila, por órgão e por via, atualizada a cada divulgação.
Por que a fila da transcrição é tão maior
Os pedidos são analisados por ordem de entrada dentro de cada fila — e cada combinação de categoria, via e órgão é uma fila própria. Por isso, quem entrou depois pode ser atendido antes: se o pedido está em outra fila, anda em outro ritmo.
A transcrição concentra o grande volume porque é a via acessível a distância: por correio, pelo consulado ou pela plataforma online. A inscrição exige presença em Portugal, o que naturalmente reduz o número de pedidos que entram por ela.
Como acompanhar o pedido em cada via
Os pedidos feitos por transcrição recebem número e código de acesso e podem ser consultados na área de consulta de processos de nacionalidade do site do IRN. Os pedidos feitos por inscrição, em regra, não aparecem nessa consulta online: o acompanhamento é feito junto da conservatória, normalmente pelo advogado ou solicitador que apresentou o pedido.
A nova Lei da Nacionalidade muda alguma coisa?
A Lei Orgânica n.º 1/2026, de 18 de maio, entrou em vigor em 19 de maio de 2026. As novas regras valem para os pedidos apresentados a partir dessa data; os processos que já estavam pendentes continuam pelas regras anteriores. O direito do filho de português à nacionalidade de origem se manteve. A separação das filas por via é uma forma de organização do trabalho das conservatórias, não uma regra da lei.
Antes de protocolar: o que fazer
- Confirmar a categoria: filho, neto, cônjuge ou outra. A divisão por inscrição e transcrição existe na fila dos filhos de português.
- Reunir e conferir os documentos: o assento de nascimento do pai ou da mãe portuguesa e as suas certidões brasileiras em inteiro teor. Se o assento português não estiver com a família, ele pode ser localizado com uma busca de documentos em Portugal.
- Corrigir divergências antes do pedido: nomes, datas ou grafias diferentes entre as certidões geram exigências, e cada exigência atrasa a decisão.
- Escolher a via com os números na mão: se é possível ter alguém numa conservatória em Portugal, a inscrição tende a ser muito mais rápida; se não, a transcrição continua disponível.
- Consultar os prazos do mês: na página de prazos, antes de decidir.
Na cidadania para filho de português conduzida pela Cidadania e Visto, o pedido é revisado por advogados no Brasil e em Portugal e protocolado presencialmente numa conservatória portuguesa pelo nosso advogado, sem que você precise viajar.
Perguntas frequentes
Qual é a diferença entre inscrição e transcrição na cidadania portuguesa?
É a forma de apresentar o pedido de filho(a) de português(a). Na inscrição, o pedido é feito presencialmente numa conservatória em Portugal, pelo interessado ou por advogado ou solicitador com procuração. Na transcrição, é feito por declaração no Modelo 1C, enviada pela plataforma online (por profissional habilitado), pelo correio ou pelo consulado. O resultado é o mesmo; a fila é diferente.
Posso escolher a via da inscrição?
Sim. O filho maior de idade de português pode escolher entre as duas vias — os requisitos e os documentos são os mesmos. Para a inscrição, alguém precisa apresentar o pedido presencialmente em Portugal: você, se estiver no país, ou um advogado ou solicitador com procuração.
Quanto tempo está demorando cada via?
Nos quadros de agosto de 2026, para filhos maiores de idade: no Arquivo Central do Porto, cerca de 5 meses pela inscrição e 15 pela transcrição; na Conservatória dos Registos Centrais, cerca de 33 meses pela inscrição e 53 pela transcrição. Os números mudam todo mês — confira a página de prazos atualizada.
Preciso de advogado para pedir a cidadania?
Não é obrigatório. O próprio interessado pode enviar o pedido de transcrição pelo correio ou pelo consulado, ou apresentar o pedido de inscrição pessoalmente numa conservatória em Portugal. A submissão pela plataforma online, porém, é feita por advogados e solicitadores. E, com representação, quem mora no Brasil consegue usar a via da inscrição sem viajar.
A inscrição vale para netos de português?
A divisão das filas por inscrição e transcrição aparece nos quadros do IRN para filhos de português (art. 1.º, n.º 1, alínea c)). Para netos (alínea d)), o IRN divulga a fila sem essa separação — em agosto de 2026, cerca de 35 meses no Porto e 54 meses em Lisboa para maiores de idade.
A nova Lei da Nacionalidade afeta quem já protocolou?
Não. A Lei Orgânica n.º 1/2026 entrou em vigor em 19 de maio de 2026 e se aplica aos pedidos apresentados a partir dessa data. Os processos pendentes seguem as regras anteriores.






